Manoel Batista da Silva, ou simplesmente Nelzinho, “in memoriam”

Hoje, vou falar de uma pessoa muito importante para mim. Não foi famoso, tinha um nome simples, bem comum, nem era um Grande Mestre de xadrez. Contudo, foi um superpai. Tinha seus defeitos. Era um ser humano, e ponha humano nisso. Tinha dificuldade para dizer não, e algumas pessoas se aproveitavam dele, entretanto ele tirava de letra. Assim, eu e meus irmãos pedíamos primeiro a ele, e depois a mamãe. Quando a gente queria alguma coisa, como ir ao Estádio Presidente Vargas (PV). Ele tinha um coração grande e muitas qualidades boas. Preferia ser chamado pelo seu apelido.

Comentando a foto. No canto superior esquerdo estão os cinco filhos (Paulo, Marcos, Regina, Cláudio e Ney) rodeados pelas imagens do papai. No lado superior direito está a foto de casamento. E no lado esquerdo inferior estão papai e mamãe com os três filhos mais velhos. E do lado direito estão papai e mamãe ao centro acompanhados pelo mano Marcos de amarelo e eu.

Gostava de ser chamado de Nelzinho. Seu nome era Manoel Batista da Silva (05/10/1935 a 15/07/1995), foi registrado como natural da cidade de Maranguape-CE, localidade do Amanari. Registrado como filho da Dona Maria do Carmo da Silva e do Senhor João Batista da Silva. Cedo ainda criança veio para Fortaleza, capital, e ficou na casa dos tios, e frequentou a Escola de Aprendiz de Marinheiros, depois passou para o Exército, tocava trompete, quando deu baixa da vida militar. Foi trabalhar no Ministério da Agricultura. Adorava música. Gostava de reunir os amigos. Não costumava ser carinhoso, era um disciplinador, e de repente aparecia trazendo presentes para todos. Nestes momentos, a casa se enchia de felicidade. Mamãe, Dona Maria Antonieta, ou, Dona Tieta, o amava demais, chegasse ele como for, sóbrio ou não. Era muito honesto, nunca vi igual, no tocante a palavra dada durante uma negociação podia confiar, você podia confiar. Nem sempre o dinheiro do funcionalismo público era pago em dia, e as cobranças vinham Foram tempos de escassez. Ele trabalhou muito, tinha um espírito de liberdade no sangue. Fazia diversos trabalhos hidráulicos e elétricos, tudo depois que saia do trabalho regular. A fim de que não faltasse o mínimo em casa.

Um fato que o marcou muito foi a saída da Marinha. Quando chegou ao 18 ano, o exame de saúde detectou uma arritmia cardíaca, que o impediu de servir a bordo de navios, assim mudou de farda, e foi transferido para o Exército, servir como corneteiro do Quartel. Entretanto, em meados de 1964, ele trocou a farda pelo serviço público e passou a trabalhar no Ministério da Agricultura na Unidade de Fomento, sito na Avenida dos Expedicionário. Tenho boas lembranças deste tempo, nos finais de tarde, quando a gente era criança ficávamos brincado no jardim na frente do prédio do Fomento, e, às 17:00, os funcionários começavam a sair. Meu coração batia forte, até ele aparecer e nós três, eu e meus irmãos, Cláudio e Ney, corríamos para abraçá-lo, que alegria! Algumas vezes, ele atrasava, todo mundo saia, à pé ou em carros, e a tarde ia ficando noite, até aquele momento tão esperado. Depois a gente seguia para casa, disputando um lugar nos braços dele, e a mamãe caminhava ao seu lado.

Se o Seu Nelzinho ainda estivesse vivo neste último dia cinco (5) de Outubro teria feito 90 anos de idade. Lembrei do Futebol. Era torcedor do Ferroviário Atlético Clube, mas os filhos se tornaram torcedores do Ceará Sporting Club por influência do padrinho Oliveira. Papai era um grande músico, fez parte da Orquestra Sinfônica de Fortaleza. Lembro que algumas vezes, ele reuniu os amigos para um ensaio na porta lá de casa, visto que nossa casinha era muito pequena, para um número de músicos que chagava. Eles traziam o que queriam beber. Cedo a mamãe preparava um tacho de farofa e um tipo de feijão tropeiro, somente para os visitantes. Menino não podia meter a mão, nem chegar perto. Fechavam parte da Rua Costa Sousa, só ficava passando carro numa faixa, nesta época o ônibus não passava em nossa rua, somente carros. As estantes de partituras e cadeiras eram postas pela calçada e parte do calçamento. Os instrumentos brilhavam ao sol. E começavam a tocar. Enquanto, o maestro comandava tudo da janela de nossa casa. Num canto da porta, eu e meus irmãos ficávamos só olhando, se ficasse passando pelo meio, levava um chega pra lá. Eles paravam e começavam, ajustavam alguma coisa, e começavam novamente. Até que chegava o momento para o intervalo, depois era livre e começavam todos a tocar por prazer. As vezes um fazia um solo individual, para o aplauso dos presentes. O sol ficava alto e quente, e as comidas e bebidas minguavam, era hora de terminar. Eles paravam e logo juntavam todo o material e instrumentos. E um carro vinha pegar tudo. O barulho ritmado dava lugar ao silêncio, não por muito tempo.

Como a gente morava junto ao Estádio Presidente Vargas, Logo, nossa rua começava a ter movimentação, pois quase o ano todo tinha jogo de futebol no Estado. Carros ficavam estacionados de um lado e outro da rua, e os transeuntes começavam a tomar as calçadas. Os carros ficavam estacionados de um lado e outro da rua, que se tornava estreita, e um cheiro de "quitutes" de frango, que nossa vizinha fazia, para vender no Estádio, tomava conta da vizinhança. Enquanto, seu Nelzinho estava repousando depois do almoço, quando acordava dava dinheiro para que um de nós comprar aquela iguaria. E a mamãe reclamava, dizia que a vizinha pegava as galinhas mortas jogadas na coxia das ruas próximas da feira do Benfica, que se realizava aos sábados e domingos. Mamãe reclamando, e a gente saboreando aquela comida de aroma gostoso, as vezes era um tipo de sanduíche, em outras um salgado, nem parecia que era feita de descarte da feira do bairro.

As vezes ele ia para o Estádio, ou, ficava em casa, quando alguém ligava para um trabalho de emergência de elétrica ou hidráulica. No fim do dia, passava pela mercearia, ali mesmo no Benfica, comprava alguma coisa para casa e aproveitava para beber alguma coisa. Quando íamos para o Estádio, o papai ficava no bar apostando e bebendo cerveja, como tínhamos que ficar por perto, a gente ficava no muro vendo pelo tela alambrado, ou, subia numa cadeira para ver a pontinha do gramado. Lembro, que o papai e outros clientes ficavam apostando numa lista apresentada pelo dono do bar. Fiquei curioso, só existe um placar, porque uma lista e tanta movimentação. De tempos em tempos, eles apostavam no primeiro escanteio, impedimento, lateral, bola na trave, placar quem ia fazer o primeiro gol, etc. Fiquei impressionado com a novidade, cheguei a até imaginar como era difícil prever o que aconteceria num jogo. Então, achei uma besteira gastar dinheiro por nada, eu não entendia isso. Mas, o bar lotava, muito movimentado e a conversa alta animava o ambiente, que ficava fedorento a cigarro e tinha um bafo de bebida no ar, e o chão ficava sujo com o passar do tempo. O barulho dos fogos, pou, pou, pou; e o grito das torcidas durante os gols. No geral era muito animado, independente do resultado do jogo.

Um dia estava em casa, quando alguém bateu a porta, fui atender. Era um senhor de idade e me disse que era meu avô. Gritei para mamãe: “- tem um homem na porta dizendo que é meu avô”. Mamãe veio correndo e o convidou a entrar. Fui chamar o papai em seu trabalho, que foi liberado imediatamente pelo chefe. Quando chegou e viu aquele senhor envelhecido, marcas de sol, pele vermelho, roupas surradas e cabelo bem cuidado; parou e deu um longo abraço. Deste momento em diante passamos a ter dois avós, os dos documentos de registro e os biológicos, que foram recebidos pelo papai. Eles moravam no Acarape-CE, perto da cidade de Redenção. Algumas vezes fomos de trem ter com minha avó Dona Júlia e meu avô Seu Julho Pires, e conhecer minhas duas tias e primos. Eles passaram a frequentar nossa casa em Fortaleza por um bom tempo.

Seu Nelzinho tinha como característica marcante o cumprimento com seus compromissos, sua palavra valia muito, fundamentalmente, era cumpridor de seus deveres. Era muito honesto, que tinha gente que se aproveitava desta honestidade. Gostava muito de trabalhar, quando necessário não havia final de semana ou feriado que o impedisse de trabalhar. E foi envelhecendo, e nós também. E no início dos anos 80, deixou a música para trás. Tudo aconteceu, quando a banda, organizada por ele, foi contratada para tocar nos bailes de Carnaval no Clube do América. No final das contas não receberam nada, ele levou um grande trambique pelas quatro noites que tocaram. Como ele era honesto, ele tirou do seu próprio dinheiro do suado trabalho para pagar o pessoal de sua banda. E a gente ouvia no rádio e televisão o fulano trambiqueiro bancando de "social light", gente representante da elite da sociedade Fortalezense. Oh! Gente boa de prestar. Por um tempo voltou a tocar e cantar no coral da Igreja dos Remédios. Só por um tempo. Pois nesta época o trabalho voltou a absorver todo seu tempo disponível.

Depois do nascimento dos nossos dois irmãos mais novos, Regina e Marcos. As coisas foram melhorando, o papai trabalhou muito. Trabalhava na semana como funcionário público e nos finais de semana tinham suas empreitadas com sua turma de trabalhadores. E os filhos mais velhos foram entrando no mercado de trabalho. A gente brincava muito com ele. Seu Manoel não gostava de ser chamado de Manel; como disse, preferia Nelzinho. Também, ele gostava das novidades tecnológicas. A televisão era uma diversão, que a gente aprendeu a compartilhar vendo os filmes e séries que ele gostava. E nas noites de filme tínhamos o momento da ceia, na cozinha a mamãe deixava alguma coisa depois do jantar, para que mais tarde dividíssemos vendo o filme na televisão, ou, aquelas séries Norte Americanas: Bonanza, Chaparral, Zorro etc.

Ele não jogava de xadrez, o negócio era o jogo de Damas, foi um jogador afiado. Falando em jogo, como ele gostava de jogar. Teve um tempo em que no jogo de Damas era imbatível, as partidas no bar, logicamente, tinham que ser apostadas. Além do jogo de Damas, tinha a sinuca e dominó. Na década de 70, nesta fase, agora aos sábados, depois do trabalho, frequentava o bar na Rua do Canal. Todos os jogos paravam, para o início do bingo. Tempo em que o papai trabalhou muito, e se desligou um pouco da música. Segurou a barra, enquanto eu e Cláudio estudávamos na Universidade Federal do Ceará. Quando terminamos a Escola Técnica, o mano Ney resolveu trabalhar no SERPRO ao contrário de nós dois, eu e Cláudio, que fizemos vestibular. Contudo, antes de terminarmos os nossos cursos universitários tivemos que reconciliar os estudos com o trabalho, a fim de ajudar em casa. Esse foi um tempo de muita prosperidade lá em casa.

No começo dos anos 80, lembro da noite quando cheguei em casa com o troféu que tinha mais de um metro de altura, e que eu tinha carregado em dois ônibus. Papai abriu o portão da grade da área de casa, e ficou admirado com o troféu, e como passava de uma da madrugada, mamãe botou todos pra dormir (2). Nos divertimos muito durante as noites vendo televisão e comendo alguma coisa da geladeira. Também, era o período que a gente estudava para concurso. Até o papai resolveu voltar a estudar, entrou para um curso especial de Mestre de Obras na Escola Técnica Federal. Quando eu e o Cláudio passamos a trabalhar na Prefeitura de Fortaleza com Técnico Fiscal de Posturas, meu pai veio me dizer que ele não tinha mais valor em casa, pois todos estavam trabalhando e ele perdeu a importância. Lembrou que nas festas de fim de ano nos amigos-secretos da família, antes todos os presente vinham do trabalho dele, mas agora nem a mamãe o consultava sobre a compra dos presentes a serem adquiridos, até os mais novos não o tinham procurado. Falei para papai que não tinha problema, que a mamãe estava controlando todo o dinheiro que a gente passava para ela, e que o dinheiro dele também era importante. Depois quando passei na Petrobras, fui morar em Salvador-BA e depois em Natal-RN, e frequentemente visitava Fortaleza, mas perdi o convívio diário com papai e os manos. Contudo, ele continuou trabalhando, depois que se aposentou do Ministério da Agricultura, foi trabalhar como Mestre de Obras em uma construtora. Para ele trabalhar era vida.

Ele veio a Natal, para me visitar e aproveitei para fazer algumas consultas. Conversamos sobre trabalho e o desenvolvimento das tecnologias, assunto que ele gostava. Não quis falar como seria parar de trabalhar, para ele este era um problema não resolvido. Adorei sua visita, foi muito boa. Era começo da década de 90, ele estava em Fortaleza, quando teve complicações de saúde ao contrair esquistossomose. Nos seus últimos dias no hospital, estive com ele. Quando fiquei sabendo da gravidade de seu estado de saúde, pedi folga do trabalho, e com urgência dirigi meu carro de Natal a Fortaleza. Quando cheguei no hospital, fui informado que o papai estava na ala dos pacientes terminais. Fiquei um pouco apreensivo e fui ficar com ele no quarto, a primeira pergunta que ele me fez, foi: “- o computador chegou?”. Dias antes de sua internação ele tinha comprado um computador. Fui informado que seria necessário adquirir em torno de 6 bolsas de sangue, urgentemente! A família se mobilizou e conseguimos as 6 bolsas de sangue “O” negativo. Foi uma luta. Ele começou a perder peso rapidamente, e as bolsas que chegaram não foram aplicadas, nada de usarem. Fiquei desesperado, procurei as enfermeiras e encontrei um comportamento frio. Na verdade a atenção da equipe estava voltado para outros pacientes. Só porque meu pai estava no corredor destinado aos pacientes terminais. Desta forma, como não tinha atenção, corri ao consultório do médico dele. A atendente disse que o médico me atenderia mais tarde. Eu disse a ela que não dava para esperar, pois o meu pai estava morrendo, e ele tinha que durar até sexta-feira quando o mano Cláudio chegaria vindo da Base Petrobras de Aracati-CE. Pois, o chefe imediato dele não o tinha liberado, para ter com o papai nos seus últimos dias. A moça estava irredutível, até que a porta se abriu e um paciente saiu e outro entrou, então entrei junto. Peguei a palavra. E descrevi a situação crítica do meu pai, para ele. E o médico disse que os recursos deveriam ser usados para quem tinha possibilidade de viver, o que não era o caso do Senhor Manoel. Então, supliquei e disse que a gente tinha conseguido 6 bolsas de sangue para o Seu Nelzinho, e o objetivo era mantê-lo vivo até sexta ou sábado, para que a vontade dele de ver meu irmão fosse atendida, e ele pudesse se despedir do filho. Sai da sala com lágrimas nos olhos, não conseguia ver as pessoas. Quando entrei no hall dos pacientes terminais, a enfermei passou por mim com uma bolsa de sangue e entrou no quarto do papai. Pare na porta e fiquei observando. Olhos fundo e os ossos da face pontudos, sua testa protuberante e os ralos cabelos, aquele braço que antes era forte agora estava flácido meio amarelado, nas pernas as coxas estavam ficando como as canelas. E ao receber o sangue a alegria voltou, o semblante melhorou era outro homem. E meu irmão chegou na sexta-feira a noite e teve com ele no sábado, e no final do dia Nelzinho descansou.

Ainda temos muitas história, mas este texto trouxe um pouco, para a gente lembrar desta figura querida que lutou para nos fazer o que somos agora. Uma coisa é certa: ele não foi um Grande Mestre no jogo de xadrez, mas foi um mestre no jogo da vida. Obrigado Seu Manoel Batista da Silva, por todo o seu trabalho e dedicação para nos criar e formar. Pela marcante honestidade e disciplina familiar. Onde estiver, lanço minha gratidão por todos os momentos que vivemos juntos.


Referência

1www.chess.com – caso queira jogar xadrez na internet, recomendo este site ao qual sou filiado.


2 – Veja a história escrita neste blog sobre a taça de 1980: “Levando a taça de xadrez para casa”;


Autor: Paulo Sérgio e Silva

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