Xadrez – Uma saída pela noite (night)
Tenha em mente como é difícil caminhar por veredas desconhecidas, devido à possibilidade de um passo em falso se tornar um grande problema. Isto tanto vale para vida como para o jogo de xadrez. Então, sugerimos que busquemos trilhar caminhos seguros, conhecidos e estudados, entretanto não se deixe levar pelo impulso como o jovem personagem de nossa história a seguir. Lembrando sempre que, quanto mais você sai da rota conhecida mais surpresas você vai ter, assim usar da experiência e conhecimento podem trazer bons frutos na sua linha de jogo preferida. Segue nossa narrativa, para reflexão.
Vamos falar um pouco de um rapaz universitário, cheio de ideias e sem dinheiro no banco, em plena ditadura militar. Num sábado a noite, o rapaz estava livre para sair pelos bares, pois não mais participava do Movimento Estudantil, há uma semana estava fora do DCE (1), atividade que tomava quase todo seu tempo extraclasse. Vez ou outra ajudava o pai, a fim de ganhar alguns trocados. E neste começo de noite, andou pelos bares do Benfica, bairro tradicional de Fortaleza.
Ele chegou ao Bar Quina Azul, avenida Carapinima, onde costumeiramente era frequentado por alguns conhecidos e colegas. Encontrou uns amigos e se apertou na mesa na qual estavam bebendo cachaça e tirando o gosto com limão. O bar de esquina se espalhava pela estreita rua lateral (rua pequena, mas de nome grande: Edson Alves de Oliveira) com suas mesas e cadeiras descendo a calçada e impedindo a passagem dos carros. O povo lotava o ambiente, grande maioria era de universitários, ocupando os espaços entre as mesas e cadeiras. Alguém tocava um violão em troca de bebida, e alguns cantavam no meio daquela conversa gritada, sob a luz dos postes da rua e lâmpadas que o dono do bar cordeava ao redor, o assunto era política, futebol ou alguma novela da televisão, e rolava este festival de diversão, bebida e arte.
Tempo em que tudo era proibido, “aliáis, eu queria dizer que tudo era permitido até beija você no escuro do cinema quando ninguém nos vê.” Parafraseando a letra da música de Belquior: “Rapaz latino-americano” (1976). Ali entre as conversas e pensamentos de liberdade, todos esqueciam que estavam numa ditadura, mas sabendo que possivelmente poderia existir um dedo-duro a espreita. Era começo dos anos 80, antes tinha horário rígido para suspender a bebida, mas as coisas estavam mudando. As horas passavam e as pessoas aos poucos seguiam seu caminho dentro da noite, uns iam pra casa, outros apenas mudavam de lugar e continuavam a farra. Em dado momento, o rapaz foi se saindo e disse que estava cansado e devia ir pra casa. Não havia muitas meninas livre naquele lugar, então resolveu tirar o time.
Foi caminhando descendo pelas ruas mal iluminadas, passou pela 13 de maio (- bela data não acham?). As luzes amareladas formavam uma trilha a ser seguida, de repente lembrou que havia outro lugar, e desviou pela Avenida da Universidade, que lá na frente se transforma em João Pessoa. Admirou o prédio da reitoria através das grades e suas árvores no belo jardim sombreado, os grandes galhos das mangueiras cobriam parcialmente as luzes e ao vento moviam as sombras e os carros passavam quebrando a monotonia. Pensou um pouco, desviando-se do caminha de casa seguiu rumo a Porangabussu (2), onde poderia encontrar algumas casas discretas próximas do campo do Ceará. Para explorar e descobrir os mistérios da noite. Não se sentia solitário, tinha uma alegria interior talvez por se sentir livre e poder seguir estes caminhos misteriosos a fim de matar um pouco de sua curiosidade juvenil.
Olhou para seu lado direito e viu a Igreja dos Remédios, e disse para si: - vai dá certo! E seguiu a pé pela calçada sob uma luz tênue rumo ao Estádio Carlos de Alencar Pintos, campo do Ceará. As casas já estavam fechadas, algumas janelas estavam com a luz acesa, tinham uns terrenos baldios e alguns trechos surgia uma água correndo pela coxia da rua. E seguia clamo com uma felicidade que talvez tenha vindo das doses de cachaça. Passou a ponte do canal. E numa esquina tinha um vendedor de milho rodeado por três meninas. Gargalhavam alto numa conversa animada, misturando o cheiro do milho ao perfume doce das moças. Neste momento o vento parou.
Tinha uma loirinha sorridente que prendeu a atenção do rapaz. Por um momento, ele ficou observando seu jeito. Quando ela estava prestes a pegar uma espiga de milho. Ele falou prontamente: - Deixa é por minha conta. A garota direcionou toda sua afeição para aquele rapaz de fala mansa e gentil. Ele também pegou um milho, e saíram da roda dando lugar para outros. A conversa fluiu bem, seguiram pela calçada e pararam próximo de uma das casas. O rapaz não gostou muito do lugar. Dois policiais entraram e logo saíram levando um sujeito, e entre empurrões e puxões socaram o suspeito no carro e foram embora. Ele ouviu alguém dizer: - Arriégua! Que lugar é esse. Mas, foram entrando sob uma luz tremula, música alta, as mesas tomadas por vultos, até que uma outra garota conhecida da jovem os chamou para sentarem com ela e um parceiro, a fim de dividir a mesa. Nosso amigo não se viu confortável, lugar apertado, com muita fumaça de cigarro e um cheiro de bebida. O casal aproveitou para trocar alguns beijos e intimidades. Entretanto, o jovem universitário pensou, olhou ao redor, e achou que eram muitos desconhecidos de uma vez só na mesma mesa. Então, como bom cearense, desconfiado, resolveu dar um desculpa e sair dali.
Saíram e foram procura um bar mais aconchegante. Chegaram num lugar cheio de mesas, e uma delas num cantinho, onde aportaram. Entre olhares, beijos e abraços. Pediram uma cerveja e um tira-gosto. Ele sussurrou para ela, que: - devemos controlar os gastos. Deste jeito vai faltar o do programa. Ela respondeu que não precisava guardar o dinheiro do motel, pois ela tinha um espaço na casa dela, que só dava para dois. Também, ela tinha um motorista que ela pagava por quinzena e deixasse por sua conta, transporte não era problema. A conversa e as intimidades do casal avançaram, em pouco tempo estavam bem íntimos. Logo resolveram seguir para o ninho de amor prometido. Chamaram o carro, e ele veio prontamente até o orelhão (3). Quando entraram no carro, o motorista pediu a gorjeta dele, pois o carro só levava as moças, nada de marmanjo. Mas, encantadoramente a moça o convenceu dizendo que depois eles se acertariam. O condutor sorriu e disse: - Tá bem! Entraram no velho fusca que saiu fazendo um barulho estranho regado a um o cheiro de gasolina. Foram rodando pela noite escura, mais uma curva e outra, uns beijos e uma chuvinha começou a cair. Não demorou muito. O carro parou próximo de uma mangueira, ela desceu e disse: - chegamos, é bem ali, vamos a pé só um pouquinho.
Ela saiu puxando o rapaz, depois da mangueira apareceram varias casinhas fechadas e desalinhadas, com a luz do poste escondida por trás da árvore, tudo molhado. Até que pararam defronte de uma delas, ela bateu como se fosse um código. A porta abriu, entraram e o rapaz nem viu quem abriu. De repente, começaram a se beijar e ficaram desnudos um para o outro. Junto a parede tinha uma cama de solteiro e o casal estava entregue ao ato carnal. Ele apertava, sentia o cheiro e o gosto na boca da que mulher quente enquanto pensava como era bom aquele calor misturado com uma sensação de prazer trocado. Ai, ai, ai e uma criança começa a chorar alto, estridentemente, quando ele se vira vê uma mulher nua com a criança nos braços. Pensou: - essa é tão bonita quanto. E os ouvidos doíam. Houve uma pausa no ato, e tiraram uma bolsa debaixo da cama e a moça pegou um pacote. Quando alguém bateu a porta. Foi um alvoroço no meio daquela gritaria. Ela disse: - É ele. A outra jovem respondeu: - Já vai! Rapidamente, a amante atira a roupa e os sapatos do rapaz pela pequena janela. Ele tateou e pegou a camisa com a carteira e vestiu a cueca. E a criança chorava e gritava. Quando viu a janela, refugou, era muito pequena, mas não havia escolha e mergulhou de cabeça as mulheres pegaram em suas pernas e ele nasceu para um corredor estreito. Sentiu-se com se fosse cuspido fora. Uma água corria pelo centro da via apertada. Catou as peças de roupa e um par de meias veio em seu rosto e a janela se fechou. Sentiu medo e alivio jundo, e dentro sentiu um silêncio, e pressa. Deu alguns passos e colocou as meias e as calças, calçou os sapatos, seguiu se recompondo e notou que o silêncio voltou. E veio um barulho de um avião passando, devia estar perto do aeroporto de Fortaleza. A luz era pouca e começou a chover suavemente, chuvinha leve, e bateu a cabeça na extremidade dos telhados baixos, percebeu o incomodo de arranhões num braço. Segui pela viela por um lado que não tinha saída, voltou e caminhou rapidamente procurando outro caminho. Esbarrou na mangueira, aquela mangueira da parada do carro. Sentiu uma dor no joelho, e tentou se limpar. Tinha que sair dali. No instante que foi em direção a rua, apareceram duas luzes gigantes vindo em sua direção, tinha um letreiro. Era um ônibus! Milagre! O motorista hesitou, mas devido aos buracos ele tinha que passar bem devagarinho. O rapaz bateu próximo da janela do trocador, que viu a aparência do rapaz e pediu para o motorista abrir a porta. Falou: - Ele não é daqui. E a porta se abriu. E o trocador continuou: - menino, o que você está fazendo aqui? Esta área á muito perigosa! Não sei como você está vivo. O rapaz agradeceu aos anjos que apareceram na hora certa.
Quando abriu a carteira não tinha nenhum dinheiro. E o trocador disse que não tinha problema. Que eles tinha salvado uma alma naquela noite, e não iam deixar o trabalho pela metade. Todos riram: o motorista, o trocador e o rapaz. Quando se acalmou colocou a mão nos bolsos e encontrou um ticket de passagem. Rapidamente, repassou aliviado ao trocador, que por sua vez agradeceu. Eles foram conversando e o ônibus entrou na avenida da Universidade, onde tudo começou. Quando o transporte parou no ponto defronte a reitoria. O trocador disse: “- teve muita sorte! Toma juízo, essa é a última viagem da noite”. Mais uma vez o rapaz agradeceu, e seguiu, pois ainda tinha uns oito quarterões para caminhar pelo Benfica. Mas, a chuvinha, que respingava dava uma trégua e logo voltava, não incomodava em nada. Caminhou apreciando o brilho que a água deixava nas paredes, postes e calçadas, e um relâmpago clareou tudo e um trovão bateu os tambores de boas vindas ao chegar a porta de casa.
Observação
DCE, sigla que significava Diretório Central dos Estudantes.
Porangabussu, palavra de origem tupi-guarani que significa "belo grande" ou "lugar muito bonito", resultado da junção de porangaba (belo, bonito ou formosura) com ussu (grande) .
Orelhão – telefone público que era usado por populares para fazer chamadas a cobrar ou pagas por fichas compradas numa venda próxima.
Night (nait) – significa noite em inglês.
Autor: Paulo Sérgio e Silva
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