Xadrez – A raiva transforma você num perdedor
Vamos discorrer sobre um sentimento que todo mundo tem e não pode escapar dela: a raiva, que brota de um aborrecimento ou uma irritação, que evolui até sair do controle, por meio de um ataque de fúria, uma explosão de atos impensados, verdadeiramente irracional. Os estudiosos citam que o complemento do amor é a raiva, o ódio, e estes dois estados ficam mudando de intensidade, mas uma não anula a outra. Imagine isso dentro na cabeça de um pensador no seu momento de criação e inspiração.
A raiva é tão maligna, que tira qualquer um dos trilhos traçados pela racionalidade. Esse sentimento reativo o domina, depois de um gatilho, que pode ter vindo de uma disputa, durante uma discussão, um debate em volta de um projeto, um olhar enviesado, um tom de voz alto, um disse me disse, uma piada maliciosa e outros modos que o ofendem, tudo isso pode levá-lo a uma reação impensada. Assim como na vida, no jogo de xadrez a ação impensada por certo o levará ao insucesso. O autocontrole é fundamental para chegar aos seus objetivos, pois a paz interna é a base para o equilíbrio e desenvolvimento de seus planos.
Este é um sentimento que é inevitável para todos, entretanto, ele pode ser administrado em seu estágio inicial. Quando uma pessoa o fere de alguma forma a sua reação imediata é a contestação, que pode evoluir de um sentimento ruim para um juízo falso. Alguém me falou que grandes atletas demonstram raiva e fúria durante seus jogos, como a cena de tenistas que quebram suas raquetes em plena quadra, ou, o jogo de futebol que vai para pancadaria, ou, quando um Grande Mestre de xadrez discute com repórteres, são situações negativas que atingem o indivíduo, ou mesmo, a uma equipe. Todos estes atos têm consequências negativas, tanto de imagem, ou até mesmo atrapalhar no cumprimento dos objetivos desportivos dos envolvidos. E que devem ser trabalhados, para que estes sejam administrados ainda no psicológico.
Em 2019, quando estava jogando a semifinal do brasileiro Norte-Nordeste em Manaus, eu precisava da vitória para melhorar minha posição na tabela e ficar no grupo de cima, ou próximo, dos que estavam na dianteira. O jogo começou bem, estava equilibrado. Eu jogando de brancas, achei que tinha chances de vencer. As peças foram saindo do tabuleiro e ficaram os cavalos e peões. Tudo ia bem, até que meu oponente começou a ficar de costas para mim observando uma partida disputada ao lado. Nas duas primeiras vezes, anunciei meu lance para ele. Depois deixei pra lá, mas fiquei sentindo que era um desrespeito. Fui ficando irritado com a situação. Fiquei pensando em informar ao juiz, ou sair da mesa, ou não sei o quê. Resumindo, ao invés de pensar no meu próximo lance, comecei a gastar tempo pensando em me vingar daquela situação. O tempo do meu relógio foi ficando ralo, e cometi um pequeno erro. Ainda parecia igualada, mas o oponente passou a jogar firme com confiança, e eu me sentindo desafiado com aquele comportamento. Passei a levantar da mesa, dar voltas pela sala ao lado para dissipar este sentimento de raiva controlada. Mas, o estrago estava feito e veio a derrota e frustração. “Perdi para mim mesmo”, pensei. Fiquei chateado, desmotivado para o próximo jogo, contudo a vida continua. E fui jogar para cumprir tabela. Tudo porque não controlei meus sentimentos.
Um ato simples, virar as costas para mim, fez-me sentir que eu estava sendo tratado de forma injusta, desrespeitado, e que este fato deveria ser retaliado ou vingado. Pensamentos fora do jogo, isso tomou espaço em minha mente. E perdi o jogo. Não explodi porque o ambiente do xadrez requer controle, cortesia e gentiliza.
Segundo Sêneca, o indivíduo passa por três estados: no início vem o sentimento involuntário no primeiro estágio “sinto que fui prejudicado”; no segundo estágio aparece o juízo mental “fui prejudicado, mereço vingança”; no terceiro e último estágio a raiva explode e assume o controle, e a vingança se torna o objetivo, isso é o início da insanidade temporária.
No começo do sentimento instintivo de incômodo eu deveria ter levantado e me afastado. Dissipado este sentimento de ser prejudicado. Possivelmente, tudo era só pensamento falando em minha mente. Talvez o adversário nem ficou sabendo, ou isso fosse apenas má educação. Contudo, deixei chegar a raiva e fiquei paralisado, não cheguei a raiva extrema. Mas, o estrago foi feito. O xadrez é um jogo mental e dentro da partida, podem surgir sentimentos ruins que podem prejudicar seu desempenho, até pode haver uma recuperação durante a partida. Mas, o melhor é administra o quanto antes ainda no primeiro estado, manter a calma sem confusão mental é fundamental, porque a derrota pode estar a caminho.
Outro evento aconteceu em novembro de 2025, ano passado, quando estava voltando da igreja, observei que um vizinho estava com dificuldade para caminhar. Então, eu me ofereci para ajudá-lo na caminhada, e fomos conversando como algumas vezes tinha ocorrido ocasionalmente. A bengala de um lado e eu segurando do outro seguimos andando pela calçada acidentada, coisa que no dia a dia a gente nem percebe. Quando chegamos ao portão de sua casa, ele falava de sua neta que não foi aceita na Universidade Federal do Rio Grane do Norte, devido a política de cotas do governo. Então, saiu sem pensar: “ainda bem que não foi aceita na federal, assim ela pode frequentar uma Universidade privada, e tudo ficará bem!” A reação dele foi imediata. E foi aumentando a voz: “minha neta tem direitos como qualquer um de frequentar a Universidade Federal.” Vi os olhos arregalados dele. E continuou falando que não precisava pagar para estudar, os méritos e os direitos dela deveriam ser respeitados. Então, dentro da casa alguém abriu a porta que davas para o jardim, e fui me afastando pela rua. Pedi desculpas e dei um bom dia, enquanto ele empunhava a bengala, senti até os pingos da saliva, que saltavam com suas palavras. Ao longe, vi que ele se acalmou, achei. Semanas depois nos cumprimentamos a distância.
E fiquei pensando, que incoerente, meses antes, ele tinha me fala que era a favor da privatização total do ensino. Como havia muita corrupção neste segmento etc; ouvi e fiz pequenas intervenções, mas ele era firme em suas palavras. Conclusão, se ele era a favor de privatizar e acabar com o ensino público gratuito, que raios a neta estaria “fazendo” numa entidade pública. Então, existe uma incoerência entre atos e palavras. Mas, o impressionante, foi aquela fúria toda, quanto ódio repentino saindo com as palavras impensadas, em pouco tempo os três estados de Sêneca foram cumpridos.
Deixei de ir a bailes de carnaval em geral, porque comecei a notar que muitas pessoas que frequentavam estas festas estavam ali, para brigar e ofender os outros de alguma forma. Então, para não ter confronto deixei de a estes ambientes, isto é uma forma que eu encontrei para mim. Então, você deve procurar suas formas de contornar os seus momentos de irritação.
Conclusão, evitar a raiva é o melhor remédio, devemos controlar para não chegar nesta perda de controle e chegar a raiva extrema. Observamos que no xadrez não precisa a gente chegar ao nível três da raiva, basta o segundo para o estrago estar feito. Na vida real, devemos evitar que a gente não perca o controle, e também, devemos nos afastar de gente raivosa, que reclama de tudo e deixam o ambiente ruim. Evitar conflitos é sempre o melhor ato. Vamos viver sem desavenças e administrando os momentos de, o bom é tudo pela paz!
Referência
Site de jogos pela internet, que sou filiado: www.chess.com
Fideler, David; Um Café com Sêneca; Tradução 2022 por GMT Editora Ltda.
Autor: Paulo Sérgio e Silva
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