Era apenas uma pulseira laranja!
Quando me preparava para ir para a academia, a pulseira do relógio contador de passos partiu e fui procurar as sobressalentes, e no pacote tinha a última pulseira que era uma de cor laranja. Não costumo usar esta cor, mas não tinha jeito. Depois peguei meus documentos e vi que o calção não tinha bolsos, procurei uma bolsa pequena, aquelas que a gente põe o passaporte junto ao corpo. Encontrei uma bolsa, que era um pouco maior, mas não tinha tempo para buscar outra. Já estava atrasado. Fui assim mesmo.
Cheguei como sempre, cumprimentei a recepcionista e comecei meu treino. Estava tudo normal na academia quando um sujeito acompanhado de um personal trainer, passou perto de mim, e o indivíduo dizia: “- esse queima, esse queima, esse QUEIMA!” Olhei, para vê quem estava fazendo essa brincadeira de mal gosto. Procurei em volta e não observei qual a pessoa alvo das palavras. O instrutor da academia dizendo:“- que é isso, não diga isso”. E o sujeito continuava. E passou a olhar em minha direção acintosamente. E repetia o refrão. Deduzi que eu era o alvo da pilhéria dele. Essa zombaria era comigo, eu não estava fazendo nada. Olhe, e pensei em tomar satisfações, mas resolvi parar e sair dali. Fui procurar outro aparelho. De repente, um cara forte cortou o meu caminho, por um momento olhei para o grandão e notei que suas feições eram de ódio. Mudei o caminho. Fui fazer meu exercício num aparelho no outro lado da academia. E eu pensava: “- não fiz nada, que está acontecendo?” Mesmo a distância o velho ficou olhando, como se tivesse me marcando. E conversava com outro que estava ao seu lado. Pensei: “- coisa chata!”. Conclui minhas atividades e sai daquele lugar, não estava a fim de brigar. Antes de entrar no carro, voltei. Mas, o gerente da academia estava ocupado, então resolvi não comentar com ninguém. E fui embora.
Então, cheguei em casa. Qual seria o motivo para um comportamento desses? Foi um bullying? Fiquei pensando. Quando olhei para meu braço vi o relógio de pulseira laranja, e a pequena bolsa preta que cruzava meu peito tinha detalhe laranja. E estavam combinando. Nem tinha percebido até então. “- Mas, será que eles estão pensando, que eu sou?” Fiquei impressionado com a violência gratuita. Foi um alívio sair do campo de visão daqueles “idiotas”. Tudo por nada. No resto do dia, fiquei pensando como as pessoas homossexuais e outras minorias sofrem discriminação. Enfrentam inesperadamente o ódio de gente que não sabe conviver com o outro. Fiquei triste pelas pessoas que devem passar por isso diariamente.
Nos dias seguintes resolvi continuar usando os mesmos acessórios. Por alguns dias, não topei com os fulanos, as oportunidades foram poucas, mas quando os vi continuei minha rotina de treino, normalmente. Até passei por perto para ver a reação, pois eu me achava preparado, não sei como. Pelo jeito sabia que eles estavam comentando, quando eu me aproximei para confrontá-los, eles dissimularam, Talvez alguém da academia tenha conversado com eles, acho.
Agora estou perplexo e impressionado com o comportamento hostil e de mau gosto destas pessoas preconceituosas. Quando penso que há alguns anos, eu ria das brincadeiras e piadas que faziam sobre os homossexuais. Felizmente, a gente vai aprendendo a respeitar os outros, tudo passa pelo respeito. Como pode um dito “senhor de família” ter um comportamento desse do nada. Só por achar que o fulano é isso ou aquilo. Falta total de empatia, consideração, respeito, tolerância e outros bons comportamentos para aceitar o próximo como ele é. Não admira que a sociedade esteja dividida politicamente: pelo ódio aos pobres, aos negros, aos índios, aos homossexuais, aos trabalhadores etc. Precisamos nos conscientizar e lutar para melhorar nossa sociedade como um todo, deixar de lado as diferenças e caminharmos juntos para deixar para nossos filhos e netos um mundo melhor, cheio de paz e harmonia. Para isso é até importante se posicionar politicamente, por projetos políticos e leis melhores, que busquem reduzir os atos racistas, preconceituosos e nos tornem iguais como povo.
É horrível saber que tem gente desse tipo solta em nossa sociedade. Fazendo um tipo de bullying gratuito, só por encontrar alguém diferente em seu caminho. Este evento serviu para eu passar a respeitar e tolerar as pessoas como elas são, sem julgar pelo estereótipo, e a consolidar minha definição política dentro da sociedade de hoje.
Autor: Paulo Sérgio e Silva
\PSS

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